por Alejandro Jodorowsky
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Cena do filme Fando y Lis (1968), de Alejandro Jodorowsky |
1. PRIMEIRA LIÇÃO
Sentar-se do amanhecer ao anoitecer na frente de uma árvore sentindo a luz. Voltar por sete dias seguidos e fazer o mesmo.
2. SEGUNDA LIÇÃO
Voltar à noite com uma lanterna e iluminar a árvore por infinitos pontos distintos.
3. TERCEIRA LIÇÃO
Colocar-se a um quilômetro da árvore. Olhar para ela fixamente e
avançar centímetro por centímetro em direção a ela até que, depois de
algumas horas, se choque o tronco com o nariz. (As duas primeiras lições
servem para desenvolver o sentido da luz. A terceira para desenvolver o
sentido da distância).
4. QUARTA LIÇÃO
Colocar-se em um interior ou paisagem e mover-se pensando que seu
próprio peito fotografa, depois pensando que a sua cara fotografa,
depois o sexo, depois as mãos.
5. QUINTA LIÇÃO
Coloque-se em um lugar e sinta que você é o centro dele. Logo sinta que
está sempre na superfície ao redor do lugar. Ao final rompa a idéia de
centro e superfície. Está aí, tudo está em você e fora de você ao mesmo
tempo. Você é a parte do lugar. Existe o lugar. Você desapareceu!
6. SEXTA LIÇÃO
Procurar a cor que não tem cor. Pegue uma página branca e veja suas
cores. Pegue uma página preta e veja suas cores. Veja as cores de um
vidro transparente. Descubra o arco-íris em um pedaço de terra, em um
cuspe, em uma folha seca. Expresse a cor com materiais sem cor. Na
verdade lhe pergunto, você sabe quantas cores tem a pele da sua cara?
7. SÉTIMA LIÇÃO
Sinta as pontas dos seus dedos como se fossem a ponta da sua
língua. Apóie as pontas dos dedos nos objetos do mundo pensando que são
frágeis, que uma pequena pressão pode quebrá-los. Peça-lhes permissão
antes de tocá-los. Antes de apoiar os dedos na sua superfície, sinta
como penetra na sua atmosfera. Aprenda a sentir e a acariciar com
respeito. Qualquer ação que faça no mundo com as suas mãos ou corpo pode
ser uma carícia.
8. OITAVA LIÇÃO
Pense que os atores vivem dentro de um corpo como centro de uma caverna.
Peça-lhes que não gritem com a sua boca, e sim dentro de sua boca. Que
não se expressem com a cara, e sim com vibrações. Viva debaixo da
superfície. A superfície do rio não se move, mas você sabe que leva
correntes profundas.
9. NONA LIÇÃO
Não importam os movimentos de câmera. Ela deve mover-se somente quando
não puder ficar quieta. Você leva o alimento na mão. A câmera é um cão.
Faça-a seguir com fome o alimento. A fome faz com que o animal se
apague. Não há cão, não há fome, não há câmera. Há acontecimentos. Você
nunca pode comer a maçã inteira no mesmo instante. Tem que dar
mordiscadas. Enquanto come, você tem uma parte. Deve saber que o pedaço
que mastiga não é a maçã inteira. Você nunca pode ter a maçã inteira na
boca porque por maior que seja a sua boca, não pode caber nela o fruto
que é parte da árvore nem a árvore que é parte da terra. A tela é a sua
boca. Ali entram pedaços. Partes do acidente. Não tente trabalhar com
planos absolutos. Não creia que existe o plano melhor. Se pode morder a
maçã em qualquer lugar. Se a maçã é doce, não importa onde você comece a
comê-la. Preocupe-se com a maçã, não com a sua boca. Cineasta!
Antologia de fragmentos, você também tem um fragmento, seu filme
inconcluso, você é parte, é continuação. Não há encerramentos. Mate a
palavra fim. Você começará um filme no dia em que se der conta que você
simplesmente continua. Não procure o prestígio. Desdenhe os efeitos. Não
adorne. Não pense o que a imagem vai produzir. Não a procure. Receba as
imagens. A caça está proibida. A pesca está permitida.
10. DÉCIMA LIÇÃO
Nunca trabalhe no papel seus movimentos de câmera. Chegue aos lugares
pensando que você não irá mover a câmera, que não irá iluminar, que não
irá inventar. Não crie cenas, crie acidentes. Não crie esses acidentes
em direção à câmera. Você não está fazendo um filme, você está metido em
um acidente. Parte do acidente são seus movimentos de câmera.
11. DÉCIMA PRIMEIRA LIÇÃO
E de repente, o grande prazer. Um plano pensado com a câmera opinando
com luz artificial, com “atuações” (uma verdadeira sobremesa!). De
verdade lhe digo, por este caminho você pode chegar a fazer filmes de
Hollywood dos anos 40. Se você quer ser um grande cineasta de vanguarda,
volte a filmar “E O Vento Levou”, exatamente igual, com atores de
corpos gêmeos aos de Clark Gable e Vivian Leigh. Se conseguir que seu
filme não possa ser distinguido do original, você passou à história.
Pulbicado originalmente em: http://revistataturana.com/2013/05/23/como-fazer-cinema-por-alejandro-jodorowsky/