Participe / Participate

Participe enviando contribuições (filmes, textos, links, dicas, etc ...) para antrocine@gmail.com

Send contributions to antrocine@gmail.com

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Somos também o que vemos

1˚ de Maio 2013: Curtas que merecem ser vistos
Filme/Convocatória editado por companheiros e companheiras do Sindicato em Ofícios Vários de Salamanca (CNT-AIT) com alusao ao 1º de Maio de 2013:

Capturar
Os Mártires de Chicago Os condenados de Haymarket: Louis Lingg, Oscar Neebe, Adolph Fisher, August Spies, Albert Parsons, Michael Schwab, George Engel e Samuel Fielden. Todos condenados à morte e assassinados pelo Estado a 11 de novembro de 1887, excepto Neebe  (15 anos de prisão), Fielden e Schwab (condenados a cadeia perpétua).

Mauricio Basterra *


“Para a frente com valentia! O conflito começou. Um exército de trabalhadores assalariados está sem ocupação. O capitalismo esconde as suas garras de tigre atrás das muralhas da ordem. Operários, que a vossa palavra de ordem seja: Não ao compromisso! Cobardes à retaguarda! Homens à frente!”

Com estas palavras preparava August Spies a greve do Primeiro de Maio em Chicago nas páginas do jornal Arbeiter Zeitung. Nada fazia supor a Spies que aquela jornada ia ficar, por tudo o que originou, na história do movimento operário. A reivindicação das oito horas de trabalho era o eixo fundamental daquela greve em 1886.

E, de facto, a reivindicação para a diminuição da jornada de trabalho tinha as suas raízes bem fundas nas próprias origens do movimento operário. As longas jornadas de trabalho a que os trabalhadores estavam sujeitos punham como primeiro ponto da agenda reivindicativa a diminuição das horas de trabalho, que em muitos casos atingia as 12-14 horas diárias.  Sem nenhum tipo de segurança social e com umas condições de vida miseráveis.

Curiosamente foram os Estados Unidos um dos primeiros países a introduzirem leis de redução da jornada laboral. Em 1840 a administração de Martín van Buren reconheceu a jornada de 10 horas para os empregados do governo e dos construtores navais. Em 1842 Massachusetts e Connecticut reduziram a jornada de trabalho infantil para 10 horas. Por seu lado, o Reino Unido reduziu em 1884 o trabalho infantil a 7 horas e o dos adultos a 10 horas. E assim foi sucedendo em distintos estados norte-americanos e na Europa. Sempre com reformas parciais e em sectores concretos.

Isso fez com que se concluísse que apenas uma acção organizada podia trazer melhorias mais profundas para a classe operária. Em 1864 era fundada em Londres a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) e em 1886, no Congresso de Genebra, ficou decidido que as secções integrantes da AIT iriam lutar pelas oito horas de trabalho. Oito horas de trabalho, Oito horas de descanso e Oito horas de lazer. Esse era o lema do movimento operário internacional.

O amplo poder de implantação que a AIT teve e os ecos revolucionários que chegavam da Europa, fez que em 1868 o presidente norte-americano Andrew Johnson aprovasse a Lei Ingersoll, que estabelecia a jornada de oito horas de trabalho para os empregados federais.

Apesar do desaparecimento da AIT o movimento operário continuou a reivindicar melhorias para a classe operária. Numerosas greves se sucedem, por todo o mundo, algumas delas conseguindo grandes vantagens para os trabalhadores. Por exemplo, a greve dos caminhos de ferro de Massachusetts  de 1874 conquistou as 10 horas de trabalho.

Mas os trabalhadores que integravam o movimento operário norte-americano estavam conscientes de que sem uma organização que unisse os trabalhadores seria muito difícil conquistar direitos generalizados e básicos para a classe operária. Por isso nasceu em 1881 em Pittsburgh a Federação Norte Americana do Trabalho (AFL). No seu IV Congresso, em Chicago, a organização decidiu realizar uma grande greve geral que reivindicasse as 8 horas de trabalho, seguindo a tradição iniciada pela AIT. Reivindicação que contou também com o apoio de outras organizações como os “Cavaleiros do Trabalho” ou distintas federações e associações operárias norte-americanas.

Foi constituído um Comité pelas Oito Horas de Trabalho e a greve foi marcada para o Primeiro de Maio de 1886. A greve resultou num êxito muito grande para o sindicalismo norte-americano. A situação de miséria em que viviam os trabalhadores era reconhecida inclusivamente pelos próprios governos e o presidente Grover Cleveland disse: “As condições actuais das relações entre o capital e o trabalho são, na verdade, muito pouco satisfatórias, e isto, em grande medida, pelas ávidas e impensadas imposições dos empregadores”. A convocatória da greve foi um êxito e houve mais de 5 mil greves convocadas. Em muitos lugares as oito horas de trabalho foram conquistadas (Chicago, Boston, Pittsburgh, Saint Louis, Washington, etc.) . Em muitos outros locais, ao nível de fábrica ou sectorial.

Esta força do movimento operário, animado principalmente pelos anarquistas, pôs em alerta o patronato norte-americano que não tardou em reagir. Nas sucessivas manifestações posteriores ao Primeiro de Maio os patrões lançaram contra os grevistas fura-greves e amarelos, sobretudo contra os operários da fábrica McCormik. O pior aconteceu a 4 de Maio, em Haymarket Square quando explodiram várias bombas, numa altura em que estavam reunidas 15000 pessoas.

Morreram 38 operários, 115 ficaram feridos, um polícia morreu e 70 ficaram feitos. A imprensa, aliada aos patrões, não teve duvidas em apontar desde o primeiro momento os anarquistas como autores do atentado. As perseguições contra anarquistas iniciadas pelo comissário Michael Schaack não se fizeram esperar. Entre os presos e acusados de assassinato estavam os animadores mais entusiastas do movimento operário. Todos anarquistas.  Os nomes de August Spies, Michael Schwab,  Oscar Neebe, Adolf Fischer, Louis Lingg, George Engel, Samuel Fielden e Albert Parsons passaram a ser notícia de primeira página.

Todo o processo que se montou contra eles esteve cheio de irregularidades. O juiz Joseph E. Gary, um reaccionário confesso, escolheu os jurados  de entre pessoas com influência claramente anti-socialista e anti-anarquista. Não se permitiu que houvesse jurados que pudessem ter simpatias pelas ideologias operárias. A sorte dos acusados estava ditada de antemão. A 11 de Novembro de 1887 era executada a sentença contra os condenados à morte. Spies, Parsons, Fischer e Engel foram enforcados. Lingg suicidou-se no dia anterior. Os outros acusados sofreram nas prisões durante vários anos. Para a memória ficaram os discursos que os acusados proferiram no tribunal. A defesa que fizeram da sua inocência e dos seus ideais. Foram executados por serem anarquistas e socialistas. A caminho do patíbulo continuaram a dar vivas à anarquia e à classe operária. Cantaram a Marselhesa, na altura o hino revolucionário por excelência.

A inocência dos acusados era manifesta. Estava-se no início da guerra suja contra o movimento operário. Alguns dos investigadores dos acontecimento de Chicago estavam ligados a organizações como a Agência de Detectives Pinkerton, que actuou como fura-greves e se infiltrou no movimento operário com o beneplácito dos patrões e do governo norte-americano.

De qualquer modo, para o movimento operário internacional, a data do Primeiro de Maio converteu-se num dia de comemoração para recordar os “Mártires de Chicago” e para reivindicar a jornada de oito horas de trabalho. A segunda Internacional estabeleceu-o como dia internacional de luta e o movimento anarquista transformou-o numa das datas de reivindicação operária e de comemoração ao lado do 18 de Março (aniversário da Comuna de Paris) e o 11 de Novembro (execução dos Mártires de Chicago).

Ainda assim a nível internacional as diferenças sobre como atuar face ao Primeiro de Maio distanciou socialistas e anarquistas.

Enquanto os primeiros, cada vez mais integrados nas instituições, foram convertendo o Primeiro de Maio numa data quase festiva, com manifestações de força e entrega de reivindicações às autoridades, os anarquistas consideravam-no um dia de luta e com razões para que fosse convocada uma greve geral que pressionasse as autoridades a aprovarem a jornada das oito horas de trabalho.

Hoje, mais do que nunca, convém recordar as origens do Primeiro de Maio e como os direitos que hoje se perdem custaram esforço e vidas para serem obtidos.

Na atualidade, o seu exemplo é a nossa melhor lição.

(* publicado em “CNT”, nº 399, Abril/2013)

 Nós estamos enfrentando uma das maiores ofensivas contra os direitos e as condições de vida da classe trabalhadora. Isso nos tem levado, ha alguns anos, a uma situação de crise permanente que serve de justificativa para todo tipo de agressões e cortes de direitos.
Rompamos com seu jogo. À Construir a alternativa. 1º de Mayo 2013 - Manifestación en Zaragoza - Plaza San Miguel 12'00h. - Espanha

Não comemoramos a escravatura do trabalho. Trabalhamos para combater a escravatura.


1º de Maio é luta e auto-organização // Pela liberdade, pela autonomia


Comemorar o trabalho é hoje mentires-te a ti próprio. Ele é hoje escravatura declarada e como se não bastasse vem acompanhado de violentas baixas de salários, perdas de direitos e degradação fulminante das condições em que o fazemos. Embora seja cada vez mais comum assistirmos a protestos nas ruas em resposta a esta situação e a tantas outras, é também mais perigoso fazê-lo pois o Estado e as entidades patronais estão à espreita para te lançarem a mão mal abras a boca.

Os tempos que vivemos são incertos mas ao mesmo tempo ajudam-nos a ver as verdadeiras facetas do poder. A degradação de todos os aspectos da vida levam muitos ao desespero e daqui para a frente sabemos que as condições dessa mesma vida vão piorar. O Estado social, grande conquista do séc.XX, torna-se o grande falhanço do séc XXI. Os banqueiros, quais sanguessugas, levam a cabo um saque generalizado à sociedade. Os políticos, sujeitos a um descrédito total nas ruas continuam a inventar reformas, a pedir mais impostos.

Os partidos e os sindicatos, comprometidos com a sua profunda vontade de tornar os protestos sociais em marchas fúnebres esperneiam perante a facilidade com que o seu poder é posto em causa nas ruas. A história deste tempo pode ser imensa mas arriscamos um resumo: A democracia e o capitalismo, sonhos perdidos de uma revolução de canos entupidos, é hoje uma anedota que insiste em não admitir a falência do seu modelo económico, social e politico. Perante isto, e na eminência de uma falência generalizada, emerge o fascismo mascarado de economia patente nas medidas da tróika, no aumento do controlo social, no armamento da policia, na perseguição a quem protesta ou na obrigação de mais horas de trabalho por menos dinheiro.

O sistema quer, a todo o custo, manter-se activo e lixar-nos a vida. Portanto, ansiamos por outra forma de viver. A grande chantagem a que todos estamos sujeitos (trabalhar ou morrer de fome) dá-nos mais razões para procurar formas de construir um mundo sem explorados nem exploradores. Queremos construí-lo com todos os que estiverem dispostos a lutar por uma vida digna, sem partidos a controlarem-nos a revolta e a vontade de ser livres. Estamos fartos das suas lenga-lengas que soam sempre a mentiras para que se morda mais uma vez o rabo da pescada. Queremos trabalhar, mas não para levar o planeta à sua destruição, queremos trabalhar para livrar os nossos filhos da miséria crescente que está à nossa frente todos os dias! Queremos trabalhar para nós mesmos, para os nossos amigos, família, bairro, cidade.. e mais que isso para destruir o conceito de trabalho que nos impingem. Hoje, mais que nunca, os tempos são frutíferos para muitas coisas diferentes. Atacar esta ordem e este sistema leva-nos a experimentar como viver sem eles.

No 1ª de Maio apelamos a uma mobilização pelas ruas de Setúbal em protesto não só contra a violência dos patrões mas contra a violência do Estado, da economia e das forças da autoridade que os defendem. Queremos lembrar-lhes que existe resistência. Propomos também uma assembleia popular com microfone aberto onde publicamente possam surgir propostas de luta e de acção.

1º de Maio * 15 horas * Manifestação Anti-Capitalista * Anti-Autoritária 

Largo da Misericórdia, Setúbal - Portugal

Artigos relacionados: 
Postagens relacionadas:

sábado, 27 de abril de 2013

Um diretor de fotografia requisitado

Que viva Aloysio Raulino!
Aloysio Raulino não era apenas um trabalhador do cinema, como conta o filho Gustavo, o Guga. Era alguém que pensava sobre seu ofício. O cineasta foi um dos melhores fotógrafos na cinematografia brasileira (e paulistana).
Diretor de fotografia requisitado, ajudou a fundar a ABD (Associação Brasileira de Documentaristas) sendo seu primeiro presidente e presidiu também a Comissão Estadual de Cinema, como lembra a irmã Berenice que trabalhou como atriz no único longa do irmão, o "Noites Paraguaias" (1982). Este foi saudado lindamente pelo crítico Cid Nader numa resenha recente para a revista eletrônica "Zingu!" como um "filme que, já de cara, ganhava pontos por fugir da mesmice narrativa - uma facilitação utilizada por diretores iniciantes como muleta ante o medo de um primeiro tropeção -, no qual Raulino não teve medo de ousar esteticamente, para contar uma história que remete a um dos grandes dramas humanos: o homem do campo que foge da miséria para tentar uma nova oportunidade, fracassa (ou não se acostuma) e volta à origem".
Nascido no Rio, em 19 filho de um engenheiro militar e de uma professora, Aloysio morou em Volta Redonda e veio criança para São Paulo. Antes do cinema, foi revisor de traduções.
Formou-se nos anos setenta, na primeira turma de cinema da ECA-USP, onde, na década de noventa chegou a lecionar - a disciplina de fotografia - em meados dos anos 90 por um breve mas intenso período onde deixou a direção de fotografia de pelo menos dois trabalhos importantes no Departamento de Cinema, Rádio e Televisão - "São Paulo, Sinfonia e Cacofonia" (1984), direção de Jean Claude Bernardet e "São Paulo, Cinema Cidade" (1967), de sua própria direção. Nesses trabalhos revelou espírito de envolvimento artístico extremo e habilidade técnica ao lidar com materiais provenientes de diferentes fontes de suporte técnicos e épocas. Lutou pela Lei do Curta, que exigia que as salas de cinema exibissem um curta brasileiro antes dos longas estrangeiros. Era de espírito libertário e criativo, generoso, sem reservas, diferente do que domina hoje no meio do audiovisual brasileiro. Fará falta, assim como faz Carlos Reichenbach - que, aliás, também chegou a lecionar no mesmo espaço por um mesmo breve - e intenso - período.
Muitos de seus alunos acabariam se tornando colegas de trabalho. Como o diretor Paulo Sacramento, com quem trabalhou em "O prisioneiro da Grade de Ferro" (2004). O filme tem boa parte das imagens captadas por presos. Aloysio organizou oficinas com os detentos do Carandiru para o projeto. De certa forma, é antítese e complemento à obra ficcional de Hector Babenco, esta baseada no livro de Dráuzio Varella.
Aloysio Raulino foi presença constante no cinema nacional, dirigiu um dos curtas "A Santa Ceia"do  corajoso  filme em episódios "Vozes do Medo" (1970) projeto coordenado pelo cineasta Roberto Santos (1928-1987). É um ensaio vanguardista sobre o sufoco durante a ditadura militar. Posteriormente dirigiu também vários outros curtas como "Jardim Nova Bahia" e "O Tigre e a Gazela". Escrevendo sobre "Jardim Nova Bahia" no clássico "Cineastas e Imagens do Povo", Jean-Claude Bernardet destacava como, naquele simples movimento, "o cineasta abdica de sua posição para o outro assumir". Essa renúncia, cúmplice e voluntária, repete-se, de forma espelhada, pelo essencial da carreira de Raulino, ao empunhar ele a câmera para outros cineastas. Talvez nenhum outro gesto simbolize melhor a arte de Aloysio Raulino.  Um documentário notável que também dirigiu é "Porto de Santos", em que o clima do cais é traduzido perfeitamente no registro fotográfico. Sua obra documental em curta-metragem ("Jardim Nova Bahia"; "O Tigre e a Gazela"; "Teremos Infância"; "Porto de Santos") é marcada pela experimentação formal e pelo foco sobre os excluídos, desenvolvendo um registro que o mesmo Jean-Claude afirma como sendo o pioneiro em saudar como de ruptura com o modelo sociológico tradicional do cinema não ficcional brasileiro.  Para muitos críticos, mesmo quando um filme não era tão bom, ao menos valia a pena se tivesse a fotografia a cargo de Raulino. Era requisitado pelo diretores e amado pelos amigos. Nos últimos dias fora visto sempre frequentando as sessões do festival de documentários É Tudo Verdade.
Em 2011, ele ganhou uma mostra no Itaú Cultural, que apresentou os seus curtas, no Paraná. Coincidentemente, a revista Filme Cultura comentou os trabalhos dos curta-metragens "Lacrimosa", "O Tigre e a Gazela" e Porto de Santos na última edição da revista, disponível online:
Orgulhava-se de ter trabalhado em "Serras da Desordem" (2006), de Andrea Tonacci, como lembra a irmã.  Serras da Desordem talvez seja um dos mais impressionante documentos sobre a situação indígena no País.
Foi diretor de fotografia em "Braços Cruzados-Máquinas Paradas" (1979), "O Homem que Virou Suco" (1981), "Cartola - Música Para o olhos" (2007).
O apuro técnico não o impedia de ser prolífico. Logo após sua morte, amigos e estudiosos puseram-se a fazer um balanço numérico do legado de Raulino. Chegou-se a um número ainda indefinido de mais de cem títulos entre longas, curtas e documentários. "O Coração do Brasil", em cartaz, também leva a sua assinatura. O ainda inédito "Augustas", de Francisco César Filho também. 
Segundo Guga, seu pai era engraçado e dono de um humor inteligente. Não gostava de computador e havia escrito em seu celular um livro de poemas, que pretendia lançar. Vivia andando pela Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo. Na madrugada de quinta (18), foi encontrado caído na rua, Morreu aos 66 anos. A família desconhece  a causa, mas suspeita de uma parada cardíaca. Deixa dois filhos.

Com infos de: Nota do CTR/ECA-USP, Guia kinoforum, Filme Cultura, Folha de SP e coluna do Luiz Zanin do Estadão e do Amir Labaki no Valor Econômico.

O Tigre e a Gazela, de Aloysio Raulino
por Ursula Rösele

A primeira impressão que O Tigre e a Gazela passa é de um apurado uso da estética como potencializador da linguagem. O diretor Aloysio Raulino utiliza-se de diversas imagens da cidade de São Paulo sobrepostas por narrativas do escritor Frantz Fanon, numa espécie de “grito” urbano que percorre um sem-número de pessoas que – ao migrarem para a cidade em busca de melhores condições de vida – viram-se em tristes circunstâncias sociais e econômicas.

O único áudio original que ouvimos é o de uma moradora de rua, que entoa seu canto desafinado com dizeres como “todo negro pode ser doutor”, ou melhor, “todo nêgo pode sê dotô”, num bailado para uma câmera que a registra com carinho e de uma fotografia cuidadosa que estoura propositalmente a luz incidindo sobre nós essa incongruência emanada pelo seu discurso preto-branco. Ao ofuscar as cores reais de seu filme, Raulino discursa esteticamente uma desigualdade social que – através de suas lentes – encontra dificuldade de digladiar com a realidade que se interpõe sobre aqueles corpos.

A junção de suas imagens com a fala de Fanon torna o filme um interessante instrumento de inconformismo com um mundo contraditório que, com o auxílio da arte, pode gritar a voz dos que são “calados” por um silêncio que os oprime. A frase final, “Oh corpo meu, faz de mim um homem que interrogue” vem para coroar essa idéia do cinema como potencializador da fala, da linguagem, da imagem que questiona e não se deixa calar.

Filme Citado:
O Tigre e a Gazela (idem, 1979/Aloysio Raulino)

quinta-feira, 25 de abril de 2013

I Mostra (A)narquista de Cinema de Valência

I Mostra Anarquista de Cinema de València

Hola,  blog con la info:
http://mostracinemavalencia.noblogs.org/
Somos un colectivo de militantes anticapitalistas, que nos involucramos en la lucha por la subversión del orden impuesto reivindicando el arte como arma política.
Un proyecto de contrainformación audiovisual, un altavoz de los protagonistas de la desobediencia popular.

 

SAlut i força!

Artigos relacionados: 
Postagens relacionadas:

Festival de Cine Anarquista de Barcelona 2013

PORT
O Festival de cinema anarquista retorna dias15, 16, 17 e 18 de Maio ... Nós já temos confirmadas as datas, mas ainda estamos preparando a programação, por isso, se você tem alguma sugestão, seja um trabalho pessoal ou nao, envie-nos para o e-mail: cineanarquistabcn@gmail.com, ou deixe-nos  uma cópia do filme ficcional ou documentário em qualquer um destes dois espaços:
  • Llibreria Aldarull, C/ Torrent de l’Olla 72
  • Ateneu Llibertari de Sants, C/ Maria Victòria 10
Concurso de Curtas Metragens:

Este ano, nós, além de requintada seleção habitual de excelentes filmes, fazemos uma chamada para que enviem nos curtas-metragens feitos com paixão, para uma competição com prêmios e tudo (ou algo semelhante).

Envie-nos "os trabalhos" para cineanarquistabcn@gmail.com, ou deixe-nos o cd, dvd, usb, vhs, etc em qualquer dos dois espaço de antes:

  • Llibreria Aldarull, C/ Torrent de l’Olla 72
  • Ateneu Llibertari de Sants, C/ Maria Victòria 10
Assembléia espontânea, autônoma e temporária Festival de Cinema Anarquista de Barcelona 



ESP
Vuelve el festival de cine anarquista, el 15, 16, 17 y 18 de mayo... Ya tenemos las fechas confirmadas aunque aún estamos preparando la programación; así que si tenéis alguna propuesta, ya sea un trabajo personal o ajeno, enviádnosla al correo: cineanarquistabcn (at) gmail.com; o dejadnos la película o documental en el formato que sea en cualquier de estos dos espacios:
  • Llibreria Aldarull, C/ Torrent de l’Olla 72
  • Ateneu Llibertari de Sants, C/ Maria Victòria 10
Concurso de CORTOS:
En este año hacemos, además del a habitual selección de exquisitas películas, un llamamiento a la gente paraque nos envíe cortometrajes hechos con mucha pasión, para un concurso con entrega de premios y todo (o una cosa parecida).
Enviadnos “las obras” a cineanarquistabcn (at) gmail.com, o dejadnos el cd,dvd,usb,vhs,etc en cualquiera de los dos espacios de antes:
  • Llibreria Aldarull, C/ Torrent de l’Olla 72
  • Ateneu Llibertari de Sants, C/ Maria Victòria 10
Asamblea espontanea, temporal y autónoma del FCAB

CAT:
Torna el festival de cine anarquista, el 15,16,17 i 18 de maig... Ja tenim les dates confirmades però encara estem preparant la programació, aixís que si teniu alguna proposta, sigui un treball personal o aliè, envieu-nos al correu: cineanarquistabcn (at) gmail.com; o deixeu-nos la pel·lícula o documental en el format que sigui en qualsevol d'aquests dos espais:
  • Llibreria Aldarull, C/ Torrent de l’Olla 72
  • Ateneu Llibertari de Sants, C/ Maria Victòria 10
CONCURS DE CURTS.
Aquest any fem, a més de l’habitual sel·lecció d’exquisites pel·lícules, una crida a la gent perquè ens envïi curtmetratges fets amb molta passió, per un concurs amb entrega de premis i tot (o quelcom semblant).
Fes-nos arribar el millor, o el pitjor, que puguis fer fins al 30 d’abril, una cosa és certa, ho projectarem.
Envieu-nos “les obres” a cineanarquistabcn (at) gmail.com, o deixeu-nos el cd,dvd,usb,vhs,etc en qualsevol dels dos espais d'abans:
  • Llibreria Aldarull, C/ Torrent de l’Olla 72
  • Ateneu Llibertari de Sants, C/ Maria Victòria 10
Assemblea espontània, temporal i autònoma del FCAB

Artigos relacionados: 
Postagens relacionadas:

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Mostra Cine Índio Brasil IV

Rio de Janeiro – Mostra Cine Índio Brasil IV, de 26 de abril a 04 de maio



Artigos relacionados: 
Postagens relacionadas: 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

El pueblo toma os Renoir

 Associações cidadãs de caráter assembleário tomam conta de
cinemas na Espanha

Atenção, pergunta: Seu cinema local ameaça fechar? 
Não se preocupe: entre pela porta, tome o controle do projetor e ponha o filme que te dá vontade. 
A revolução, chegou! 
Vamos ver o novo filme de Michael Haneke por bem ou por mal... O anúncio de que Alta Films, líder da exibição e distribuição de cinema independente na Espanha, ameaçava com a possibilidade de fechar ou uma drástica restruturação de sua empresa, pegou despreparados a muitos, mas não a todos. Faz alguns meses que diversas cooperativas e associações cidadãs lutam para tomar o controle dos Renoir (propriedade de Alta) e de outros cinemas alternativos do país. Tudo começou em Mallorca faz um ano, mas o movimento se estende agora a cidades como Zaragoza, Majadahonda e Sevilha. O povo unido quer ver cinema austríaco em versão original. Queiram quem quiser.
 Palma de Mallorca, maio de 2012, a sala Renoir anuncia seu fechamento eminente. Um grupo de espetadores se concentra junto aos cinemas para distribuir panfletos. Nascia a plataforma Salvem os Renoir, impulsionada por um velho conhecido da cena cinematográfica local, Pedro Barbadillo, diretor da Mallorca Film Commission. Em algumas horas a iniciativa se transforma em movimento social assembleário. Dias depois, Alta cede seu espaço a associação de maneira amistosa.
 Em 13 de julho se abrem pela primeira vez as salas CineCiutat, antigos Renoir Palma. Hoje em dia projetam sucessos recentes do cinema de autor como Amor, de Michael Haneke ou Declaración de guerra, de Valérie Donzelli. A principal fonte de financiamento deste cinema sem busca de lucro são as contribuições de seus 1.500 sócios e membros.  Se você paga 100 euros ao ano passa a ser co-proprietário do cinema. As decisões se tomam em assembléia. CineCiutat é o cinema mais barato de Mallorca. A revolução cinéfila popular triunfou.   

Alternativas cidadãs

Alta Films revendeu os projetores e as cadeiras a associação no mês de maio passado. Manter os Renoir custava 14.000 euros por mês, a metade se ia no aluguel, parte do resto em salários. O edifício era propriedade da sociedade pública Mercasa, que o alugou à associação com um desconto de 40% no primeiro ano (a 30% no segundo, 20% no terceiro e 10% no quarto). Renoir tinha seis empregados, que foram indenizaram e despedidos. CineCiutat lhes ofereceu um novo contrato. Dois deles voltaram a trabalhar nos cinemas, ainda que um o tenha o deixado ha algumas semanas. CineCiutat dá trabalho agora a 4 pessoas.
 Os associados pagam 55 euros por 10 entradas ou 100 euros por 20. A quota anual de 100 euros da direito aos co-proprietarios a ver as estréias por 4 euros e ir grátis ao cinema uma vez ao mês. Mais de 100 sócios são voluntários que participam na gestão diária do cinema, organizada em 9 comissões de trabalho.
 Que CineCiutat é algo mais que um cinema demonstra sua agitada agenda cultural. Oficinas, festivais, lançamento de livros, cinema para pais e mães (com monitores cuidando das crianças na sala ao lado), colóquios e conversas com diretores como Jaime Rosales, David Trueba, Javier Rebollo, Ventura Pons ou Patricio Guzmán.
 Até aqui os dados. Agora vamos às avaliações. “O balanço é muito positivo. Salvamos uma infra-estrutura cultural que estava perdida. O cinema se converteu em um foco muito ativo da cultura em Palma”, conta Pedro Barbadillo a El Confidencial.
 Javier Pachón, gerente de CineCiutat, assinala as duas escolhas econômicas principais para levar adiante o projeto: a inversão tecnológica (digitalização) o dia a dia (exemplificado na subida do Imposto de Valor Agregado). “A digitalização requer um investimento mínimo de uns 45.000 euros por sala. Se não das o salto, tu vais ficando sem filmes. Agora mesmo já é difícil encontrar cópias de cinema de autor em 35 mm”, conta Pachón. Um grupo de 20 sócios contribuíram com 500 e 2.500 euros para comprar dois projetores HD para as duas salas pequenas. Agora buscam financiamento para comprar mais dois projetores para as grandes.

A cultura não é um luxo

A rotina diária também se alterou. Pachón explica com detalhes de onde vem o preço de uma entrada para esclarecer o impacto da subida do IVA (o mais alto da Europa). “Precisamente 21% vai para o Estado e o 2% para os direitos autorais. O resto, mais ou menos, se distribui em partes iguais entre os demais agentes: distribuidor, exibidor… Se a entrada vale 7 euros, a sala de cinema fica com 2,82. E algumas de nossas entradas valem 4 euros”, explica.
 CineCiutat, não obstante, tem resistido a aplicar o novo IVA. “É um imposto de luxo e a cultura não deve ser um luxo. Temos que proteger ao cidadão. Ainda mais se o cidadão é o dono do cinema”, aclara Pachón.
 Do mesmo modo que Mallorca seguiu o exemplo estadunidense dos community supported cinemas, o efeito contagiante tem chego agora a outras cidades da península. CineCiutat mantêm um “contato permanente” com "uma dezena" de outras iniciativas similares surgidas em cidades como Zaragoza, Majadahonda, Valência, Córdoba, Guadalajara e Sevilha. Cidades onde se resistem ao fechamento das salas alternativas pelas múltiplas crises que afetam a versão original. Uma recessão econômica que não só ameaça a Alfa Films, propriedade de Enrique González Macho, o presidente da Academia de Cinema.
Barbadillo escreveu ontem a González Macho oferecendo-lhe colaboração. “ Quanto menos distribuidoras existirem mais difícil será que cheguem os filmes a cinemas como o nosso”. Colaboração e envolvimento contra a crise, palavras chaves da próxima iniciativa de CineCiutat: a campanha Apadrinhe uma cadeira. “Um apelo as pessoas do cinema para que se envolveam economicamente no projeto”, explica Barbadillo.
 “A situação econômica é complicada e aos sócios lhes custa as vezes renovar as cotas, mas nosso modelo vai adiante. A médio prazo quem sabe seja a única forma que sobreviva o circuito não comercial. Há um espaço para este tipo de cinema. Agora mesmo temos os mesmos expectadores que os Renoir quando fecharam. Como avaliamos isso. Temos mais margem que eles por ser um projeto sem busca de lucro. Quase todo o rendimento econômico se volta ao espectador. O futuro pode ir por aí”, reflete Barbadillo.

Livre traduçÃo: Juvei
Publicado originalmente em: http://www.elconfidencial.com/cultura/2013/04/19/el-pueblo-toma-los-renoir-119192/